O caso de uma estudante de medicina da UniEvangélica, em Anápolis, que teve a bolsa de estudos integral suspensa após publicar vídeos de viagens internacionais e eventos de luxo nas redes sociais, ganhou repercussão nacional e acendeu o debate sobre o uso de recursos públicos no ensino superior. A universitária, beneficiária do Programa GraduAção, criado pela gestão anterior da Prefeitura de Anápolis, alegava ser de baixa renda. No entanto, conforme decisão do juiz Gabriel Lisboa Silva e Dias Ferreira, da Vara da Fazenda Pública Municipal, imagens e vídeos publicados no TikTok indicavam um estilo de vida incompatível com a renda declarada — de até três salários mínimos —, exigida para a concessão da bolsa.
Nos registros, a estudante aparece em praias europeias, curtindo festivais como o Rock in Rio e compartilhando uma rotina de corridas e viagens. O magistrado também apontou indícios de fraude no processo de inscrição: entre eles, alteração formal de endereço para ocultar vínculos com os pais — sendo o pai ex-servidor com cargo de confiança e a mãe advogada e servidora pública estadual com salário acima de R$ 8 mil mensais. O avô materno, com quem a jovem dizia residir, também é empresário, o que levantou suspeitas sobre a veracidade do núcleo familiar informado.
Após perder a liminar que garantia sua matrícula mesmo sem o pagamento da mensalidade de R$ 47 mil, a estudante viu seu caso ser encaminhado ao Ministério Público de Goiás (MP-GO) para possível investigação criminal e cível. O processo corre agora em segredo de justiça, e outras bolsas também estão sob análise.
O episódio provocou forte reação política. O prefeito Márcio Corrêa (PL) denunciou pessoalmente as fraudes no programa ao MP-GO, chamando a situação de “herança problemática” da antiga gestão. Segundo ele, o Programa GraduAção foi amplamente desvirtuado, beneficiando filhos de empresários, fazendeiros e servidores com alto poder aquisitivo. Uma auditoria realizada no início do ano encontrou um passivo de mais de R$ 10 milhões em dívidas com instituições de ensino.
“Enquanto eu for prefeito, não vou usar o dinheiro de quem mais precisa para pagar mensalidade de filho de rico estudar medicina”, declarou Corrêa à imprensa nesta semana. O programa foi suspenso, e a Prefeitura afirmou que só retomará a política de bolsas com total transparência e critérios rigorosos.
O Ministério Público confirmou que vai instaurar procedimento para apurar as possíveis irregularidades incluindo a bolsista de medicina em Anápolis. A Prefeitura de Anápolis, por sua vez, reforçou que está comprometida com o uso legal e responsável dos recursos públicos. A investigação poderá revelar se a situação da estudante é um caso isolado ou reflexo de um esquema mais amplo de fraudes no programa que prometia democratizar o ensino, mas acabou beneficiando quem não precisava.








