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Plantas medicinais do Cerrado podem desaparecer até 2060

Pesquisa da UEG alerta que até 64% das áreas adequadas para essas espécies são ameaçadas pelas alterações climáticas


Redação Tribuna de Anápolis Por Redação Tribuna de Anápolis em 06/11/2025 - 10:36

Uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais do Cerrado da Universidade Estadual de Goiás (Renac|UEG) lança um alerta sobre o futuro das plantas medicinais nativas do Cerrado, bioma reconhecido como um dos mais ricos em biodiversidade do planeta e fundamental para o equilíbrio ecológico e cultural da região central do Brasil. O estudo aponta que, até 2060, as mudanças climáticas poderão reduzir em até 64% as áreas adequadas à ocorrência dessas espécies, forçando sua migração em direção à Amazônia, em decorrência do processo de “savanização”.

Publicado em parceria com o Instituto Federal de Goiás (IFG), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Universidade Federal de Goiás (UFG), o trabalho foi divulgado no último dia em 28 de outubro na revista científica Biodiversity and Conservation (Springer Nature). O professor orientador é do IFG – Câmpus Anápolis.

Intitulado “The potential effects of climate change on medicinal plants from the Brazilian Cerrado in South America”, o artigo é resultado da dissertação de mestrado de Leonardo Almeida Guerra dos Santos, egresso da UEG, concluída no Renac, sob orientação do professor Dr. Daniel de Paiva Silva (IFG – Câmpus Anápolis). Também assinam o estudo os pesquisadores Dr. Bruno Vilela (UFBA), Dra. Fernanda Gonçalves de Sousa (UFG) e Dr. Washington Soares Ferreira Júnior (UFPE).

Os pesquisadores utilizaram modelos de distribuição de espécies e cenários climáticos globais para projetar como o aumento das temperaturas e as mudanças no regime de chuvas poderão alterar a ocorrência de mais de 100 espécies de plantas medicinais do Cerrado, amplamente utilizadas por comunidades tradicionais e na medicina popular.

Os resultados indicam um quadro preocupante: até 64% das áreas atualmente adequadas a essas espécies poderão desaparecer até 2060, especialmente diante dos cenários mais severos de aquecimento global. Espécies representativas do Cerrado, como o barbatimão (Stryphnodendron adstringens), o pequi (Caryocar brasiliense) e o jatobá-do-cerrado (Hymenaea stigonocarpa), estão entre as mais ameaçadas.

Cerrado e Amazônia
O estudo também identificou uma tendência de deslocamento das espécies para o norte da América do Sul, indicando que áreas da Amazônia poderão se tornar refúgios climáticos para plantas típicas do Cerrado. Essa migração, contudo, pode gerar desequilíbrios ecológicos e dificultar o acesso das comunidades locais a recursos medicinais que integram seus saberes e práticas culturais.

“Para enfrentar essa crise, é urgente a criação de políticas públicas integradas que priorizem o estabelecimento de novas unidades de conservação (UCs) em refúgios climáticos e a manutenção efetiva das UCs já existentes, criando corredores ecológicos entre os biomas. É fundamental também implementar programas de migração assistida para espécies críticas e fortalecer o combate ao desmatamento, tudo isso em parceria com as populações tradicionais para conservar tanto as espécies quanto o conhecimento a elas associado”, destaca o pesquisador Leonardo Almeida.

Publicação internacional
Publicada em uma das revistas científicas mais respeitadas da área de ecologia e conservação, a pesquisa reforça a relevância da ciência produzida pelas instituições públicas brasileiras, em especial na UEG. O coordenador do Renac|UEG, prof. Everton Tizo, ressalta que “o estudo representa uma importante contribuição para a ciência, além reafirmar o compromisso da UEG e do Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais do Cerrado com a produção científica de excelência voltada à conservação da biodiversidade do Cerrado”. Segundo ele, a “pesquisa não apenas reforça a importância da ciência aplicada à realidade socioambiental do Brasil, como também evidencia o papel estratégico do PPG Renac na formação de pesquisadores capazes de dialogar com os principais desafios globais, como as mudanças climáticas e seus impactos na biodiversidade.”