Skip to content

Educação em Anápolis: estudantes com uniforme, mas sem professora

Pais denunciam ausência de docentes no 2º ano da Escola Maria Elizabeth Camelo Lisboa enquanto Prefeitura divulga entrega de kits e materiais na rede municipal


Por Carlos Nathan em 28/02/2026 - 14:04

Educação em Anápolis estudantes com uniforme, mas sem professora
Escola Municipal Maria Elizabeth Camelo Lisboa, no Conjunto Filostro, em Anápolis. (Foto: Karoline Alessandra de Sousa Morais)

Enquanto a Prefeitura de Anápolis divulga sucessivas etapas de entrega de uniformes e kits escolares para alunos da rede municipal, uma realidade bem diferente é vivida por pais e estudantes da Escola Municipal Maria Elizabeth Camelo Lisboa, no Conjunto Filostro. Ali a Educação de Anápolis falha, já que crianças do 2º ano A do período vespertino estão sem uma professora desde o primeiro dia de aula.

A denúncia é da auxiliar administrativa Karoline Alessandra de Sousa Morais, mãe de um dos 21 alunos matriculados na turma. Segundo ela, antes mesmo do início do ano letivo já se sabia que a docente designada estaria afastada por licença médica. Ainda assim, as aulas começaram sem substituta definida. Desde então, a coordenadora da escola vem assumindo a sala, acumulando funções e tentando minimizar o prejuízo pedagógico. Mas, sem condições de manter o turno completo, o horário foi reduzido: as crianças entram às 13h e saem às 15h.

A mudança impactou diretamente a frequência. Dos 21 matriculados, apenas 12 ou 13 têm comparecido com regularidade. Muitos pais trabalham longe, dependem de transporte coletivo ou não têm com quem deixar os filhos nesse intervalo reduzido. Há relatos de responsáveis que praticamente permanecem na porta da escola aguardando o horário de saída, porque não compensa voltar para casa.

O problema ganha contornos ainda mais graves porque os alunos estão em fase de alfabetização. Segundo a mãe, há crianças que ainda não sabem ler nem escrever, enquanto outras já apresentam desenvolvimento mais avançado. “Eles estão como se fosse uma repescagem do primeiro ano. Tem criança que precisa de atenção individualizada. Como isso vai acontecer sem professora fixa?”, questiona.

Mesmo diante desse cenário, a turma precisou enfrentar uma semana de avaliação do primeiro bimestre, o Prepara Anápolis, que pede que os alunos estudem todo conteúdo já repassado. Neste caso, o aborrecimento dos pais é ainda maior, pois como os filhos podem se preparar para uma semana de teste se não há sequer uma professora? Com carga horária reduzida e sem docente titular, o processo avaliativo se torna mais um símbolo da desorganização do que um instrumento real de acompanhamento pedagógico.

Duas semanas após o início das aulas, a direção convocou reunião específica com os pais do 2º ano A. Apenas seis compareceram. A baixa presença, segundo Karoline, não significa desinteresse, mas dificuldade logística. Foi informado que a Secretaria Municipal de Educação de Anápolis abriria processo seletivo para contratação de professor substituto. No entanto, não houve definição de prazo.

A incerteza preocupa. Em 2025, segundo relatos, situação semelhante ocorreu e a substituição demorou cerca de seis meses para se concretizar, com a nova professora chegando apenas no segundo bimestre. O temor é que o histórico se repita. “E se esse processo terminar no meio do ano? Até lá as crianças vão continuar entrando às 13h e saindo às 15h?”, questiona a mãe.

Leia também: Vereadores denunciam falhas na Educação e impasses salariais na gestão em Anápolis

Outro ponto que gerou indignação foi a comunicação truncada. De acordo com os pais, ao entrarem em contato com a Secretaria, ouviram inicialmente que o órgão não tinha conhecimento da falta de professor. A direção da escola, por sua vez, afirma que a situação foi informada. Dias depois, segundo relato, a unidade recebeu mensagem perguntando se havia déficit de docentes — como se o problema ainda estivesse sendo confirmado.

A alternativa de redistribuir os 21 alunos em outras turmas chegou a ser cogitada, mas foi rejeitada pelos próprios pais. A medida, segundo eles, iria sobrecarregar professores já responsáveis por salas cheias, prejudicando ainda mais o processo de alfabetização.

Enquanto isso, a administração municipal intensifica a divulgação da entrega de uniformes — compostos por duas camisetas, bermuda ou short-saia e calça — e de kits com cadernos, lápis, cola, tinta guache, massa de modelar e outros materiais. A comunicação institucional enfatiza igualdade, pertencimento e dignidade. Na prática, os pais afirmam que o material do ensino fundamental não foi entregue integralmente no primeiro dia de aula, como anunciado, e que os uniformes da turma em questão ainda não chegaram ou não foram distribuídos.

A crítica dos responsáveis não é à política de fornecimento de material, mas à prioridade. Para eles, a gestão municipal parece mais empenhada em divulgar imagens de alunos uniformizados do que em garantir professores em sala de aula. “Não adianta falar que todo mundo está uniformizado se não tem quem ensine”, resume Karoline.

Ela relata que já buscou ajuda nas redes sociais, entrou em contato com representantes políticos e tentou mobilizar outros pais para cobrar solução diretamente na Secretaria. Muitos, segundo ela, têm receio de se expor. Outros simplesmente não conseguem tempo para se deslocar até o centro administrativo.

O caso da Escola Maria Elizabeth Camelo Lisboa evidencia um descompasso entre discurso e prática. A educação pública não se sustenta apenas com kit escolar e uniforme padronizado. A base do processo é o professor — especialmente no ciclo de alfabetização, etapa decisiva para toda a trajetória escolar.

Sem docente titular, com carga horária reduzida, evasão crescente e avaliações acontecendo em meio à improvisação, pais e alunos permanecem desassistidos. A reportagem do Tribuna de Anápolis entrou em contato com a Prefeitura de Anápolis para esclarecimentos sobre a falta de professores, o prazo para contratação e a situação específica da Escola Maria Elizabeth Camelo Lisboa, e, em resposta, a gestão informou que a Secretaria Municipal de Educação esclareceu e confirmou que, referente à turma do 2º ano A, turno vespertino, da escola decorre de afastamento legal da professora titular por licença médica, conforme previsto na legislação vigente.

“Desde a formalização do afastamento, a gestão escolar reorganizou o atendimento pedagógico da turma, garantindo a continuidade das atividades, o cumprimento da carga horária e o direito à aprendizagem dos estudantes, sem interrupção do processo educacional. A Secretaria já adotou todas as providências administrativas necessárias para a designação de professor substituto, medida que será efetivada conforme os trâmites legais e administrativos da Rede Municipal”, consta na nota enviada. Ou seja, nenhum prazo para a solução do problema foi dado e, enquanto isso, pais e alunos permanecem à espera de uma solução concreta.