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Voto feminino completa 94 anos, mas mulheres ocupam apenas 18% do Congresso

País que teve a primeira prefeita da América Latina em 1928 ainda patina na representação política; violência de gênero e falta de estrutura afastam candidatas


Redação Tribuna de Anápolis Por Redação Tribuna de Anápolis em 28/02/2026 - 09:51

Foto: TRE-ES

O Brasil celebrou no último dia 24 de fevereiro os 94 anos da conquista do voto feminino, mas os números mostram que o direito de eleger ainda não se traduziu em poder de ser eleita. As mulheres representam 52% do eleitorado nacional, mas ocupam somente 18,4% das cadeiras na Câmara dos Deputados. No Senado, a presença feminina é de 20%, com apenas 16 senadoras. Enquanto isso, na Argentina as mulheres já ocupam 39% do Legislativo e no México chegam a 49%, segundo dados da ONU Mulheres.

O voto feminino no Brasil não veio por acaso. Foi conquistado após décadas de mobilização de sufragistas como Bertha Lutz e Natércia da Silveira, que organizaram jornais e pressionaram autoridades desde o final do século XIX. Em 1928, a professora Celina Guimarães conseguiu na Justiça Eleitoral do Rio Grande do Norte o direito de votar, tornando-se a primeira mulher a fazê-lo no país. No mesmo ano, Alzira Soriano foi eleita prefeita de Lajes (RN), a primeira da América Latina a comandar um município.

Quatro anos depois, o presidente Getúlio Vargas editou o decreto que garantiu o voto feminino em todo o território nacional. A Constituição de 1934 incorporou a medida, mas o voto feminino ainda era facultativo. A obrigatoriedade, equiparada à dos homens, veio apenas em 1965. Ou seja, durante mais de três décadas, as mulheres puderam escolher seus representantes, mas não eram obrigadas a exercer esse direito — um reflexo do lugar secundário que ocupavam na sociedade.

Para a professora da UNIASSELVI, mestre em Direito, Tatiana de Oliveira Takeda, a sub-representação feminina atual é resultado de barreiras que persistem mesmo depois de tantas décadas. “A lei de cotas determina que 30% das candidaturas dos partidos sejam femininas, mas isso não vem acompanhado de financiamento equivalente, nem de estrutura de campanha. Fora isso, as mulheres que se elegem enfrentam violência política e uma cobrança muito maior do que os homens”, analisa.

A violência política de gênero tem se tornado um dos principais instrumentos de afastamento das mulheres dos espaços de poder. Ataques virtuais, constrangimentos em plenários e até ameaças físicas fazem parte da rotina de muitas parlamentares. A senadora Augusta Brito alerta que o problema é estrutural. “A lei diz que podemos ser candidatas, mas a prática mostra que somos desencorajadas, atacadas e preteridas na distribuição de recursos e tempo de propaganda”, desabafa.

A professora Tatiana reforça que a solução passa por uma transformação cultural profunda, aliada a políticas públicas efetivas. “Não basta garantir vaga na urna. É preciso formar mulheres para a política, criar redes de apoio que sustentem suas candidaturas e punir exemplarmente os casos de violência política. Quando uma mulher desiste de se candidatar por medo ou falta de estrutura, a democracia inteira perde”, argumenta.

Estudos internacionais mostram que parlamentos com maior presença feminina tendem a produzir legislações mais voltadas para áreas sociais, como saúde, educação e proteção a grupos vulneráveis. No Brasil, entretanto, o ritmo de avanço é lento. Se mantido o atual crescimento, a paridade de gênero no Congresso levaria décadas para ser alcançada.

Os 94 anos do voto feminino no Brasil escancaram, portanto, uma democracia incompleta. A conquista das sufragistas foi fundamental, mas não suficiente. O direito de votar já está consolidado. O desafio agora é garantir que as mulheres também ocupem, em igualdade de condições, as cadeiras onde as decisões são tomadas. Enquanto isso não acontecer, a política brasileira continuará sendo um espelho deformado da sociedade que deveria representar.