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Desabastecimento de água em Anápolis se torna problema político

Após crise no abastecimento se intensificar nesta semana, assunto dividiu vereadores e mobilizou o prefeito Márcio Corrêa, que pressiona a Saneago a dar respostas mais rápidas à população


Por Carlos Nathan em 20/09/2025 - 13:55

Ribeirão João Leite Água Anápolis Saneago afirmou que segue o prazo médio de execução das recuperações está dentro do exigido pelos entes reguladores. (Foto: divulgação/Saneago)
(Foto: Reprodução)

A falta de água em Anápolis, que começou como um transtorno doméstico para milhares de famílias, tem se transformado em um problema político. Nas últimas semanas, sucessivos episódios de desabastecimento atingiram dezenas de bairros da cidade, expondo fragilidades do sistema da Saneago e abrindo espaço para embates públicos entre vereadores, prefeitura e a própria concessionária.

A crise ganhou ainda mais visibilidade quando o prefeito Márcio Corrêa (PL) decidiu se pronunciar pessoalmente sobre o tema. Em vídeo publicado nas redes sociais, ele relatou ter visitado moradores do Residencial Copacabana, após receber mensagens de que a água não havia retornado, apesar de comunicado oficial da empresa afirmar o contrário.

“No Instagram, a notícia era de que o abastecimento tinha voltado. Mas chegando à casa da dona Ester, constatei que não havia uma gota d’água na torneira. Acionei a gerência da Saneago, que enviou uma equipe e resolveu a situação”, afirmou Corrêa. O prefeito foi além e endureceu o tom: “É inaceitável o que a Saneago está fazendo com a população de vários bairros da cidade”.

A cobrança ecoou o sentimento de milhares de moradores. Em bairros como Lapa, Fabril, Campos Elíseos, Santo André, JK Nova Capital, Leblon e Jardim das Américas, houve relatos de famílias que ficaram até cinco dias sem água. No Bairro Novo Paraíso, por exemplo, moradores disseram estar desde o dia 12 sem abastecimento.

A Saneago, por sua vez, atribuiu parte dos problemas à manutenção realizada no dia 15, quando houve a interligação da nova adutora ao Centro de Reservação Jaiara. Embora a intervenção tenha sido concluída no mesmo dia, às 19h, o sistema interligado da cidade acabou gerando instabilidade em regiões não diretamente afetadas. A concessionária ainda alegou que imóveis com caixa d’água adequada não deveriam sofrer impactos, reforçando a importância de registros de falta de água nos canais oficiais de atendimento para agilizar soluções localizadas.

Apesar das explicações, a população continuou insatisfeita, e a Câmara Municipal entrou de vez no debate. O vereador Rimet Jules (PT) usou a tribuna para classificar a situação como “absurda”, argumentando que manutenções “programadas” não poderiam justificar interrupções tão longas. Ele lembrou da audiência pública com representantes da Saneago e cobrou a execução de obras estruturais, como o barramento do Ribeirão Piancó, que poderia ampliar a segurança hídrica da cidade.

“Não há qualquer iniciativa no sentido da construção. A escassez de água é cada vez mais frequente, e é um absurdo que a população fique refém dessa situação”, declarou Rimet, anunciando que encaminharia um ofício à Agência Reguladora Municipal (ARM) para fiscalizar as ações da empresa.

Na contramão, o vereador Jakson Charles (PSB) minimizou o problema. Para ele, o que acontece em Anápolis não é falta de água, mas interrupções pontuais decorrentes de obras necessárias. “O sistema supre a demanda graças a investimentos feitos nos últimos anos. Não podemos confundir a ausência temporária de abastecimento com escassez real de água”, disse. Jakson ainda lembrou que foi defensor do contrato firmado entre a Prefeitura e a Saneago em 2020, destacando melhorias já realizadas no sistema.

Jakson também elogiou a atuação do prefeito em outras áreas, citando investimentos previstos de até R$ 6 milhões no Parque da Matinha e reformas em outros espaços públicos. Segundo ele, essas medidas reforçam a preocupação da gestão com a qualidade de vida na cidade.

O debate não parou por aí. O vereador Wederson Lopes (UB) apresentou uma visão alternativa ao barramento do Piancó. Para ele, embora a obra possa minimizar o problema, a solução mais eficaz seria investir em estratégias baseadas na natureza, como a preservação do lençol freático e a aplicação do Plano de Drenagem Urbana. Wederson também destacou a importância dos produtores rurais na manutenção do volume de água do Ribeirão Piancó.

Enquanto os vereadores discutiam as causas e soluções, a Saneago anunciava novas manutenções programadas. No dia 15, cerca de 79 bairros ficaram sem água entre 5h e 18h, em razão de obras de interligação do reservatório elevado de concreto armado Jaiara à Estação de Tratamento de Água do Sistema Piancó. A empresa garantiu que o serviço era necessário para reforçar o sistema, mas pediu compreensão da população e uso consciente da água armazenada.

A repetição dos episódios, entretanto, tornou difícil convencer os moradores de que o problema está sob controle. Para muitos, as explicações da concessionária soam insuficientes diante da realidade de torneiras secas por dias seguidos. A situação, inevitavelmente, se politizou. O prefeito Márcio Corrêa transformou sua insatisfação em bandeira pública, vereadores se dividiram em críticas e defesas, e a Saneago vê sua imagem cada vez mais pressionada.

A crise hídrica de Anápolis escancara não apenas falhas técnicas, mas também a complexidade da relação entre município, concessionária e população. Em meio à disputa de narrativas, quem sofre de fato é o cidadão comum, que precisa lidar com a incerteza do abastecimento de um recurso básico e essencial.

Com a proximidade do período de estiagem, a tendência é que a pressão aumente. De um lado, a população exige respostas rápidas e soluções definitivas. De outro, a Prefeitura e a Câmara tentam demonstrar protagonismo no enfrentamento da crise. No centro desse embate, a Saneago é obrigada a conciliar explicações técnicas com a crescente cobrança política.

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