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O preço da passagem do transporte coletivo vai aumentar ou não? Entenda polêmica

A tarifa técnica, que representa o custo operacional do sistema de ônibus em Anápolis, ultrapassa os R$ 8,19 previstos para 2024


Por Carlos Nathan em 06/09/2025 - 14:14

transporte coletivo Anápolis
A concessionária Urban cobra subsídios e aponta perdas com gratuidades e impostos, enquanto Prefeitura e Câmara resistem a um reajuste que pesaria no bolso dos usuários (Foto: divulgação)

O transporte coletivo em Anápolis foi a pauta política e social da vez na cidade nos últimos 10 dias. Tudo começou com o anúncio do aumento de preço da passagem e, por trás dessa discussão, está a chamada tarifa técnica — valor que representa o custo para manter o sistema funcionando, dividido pelo número médio de passageiros transportados.

Na semana passada, a Urban, concessionária responsável pelo serviço, obteve na Justiça o reconhecimento desse valor em R$ 8,19 para 2024. O número, contudo, não é automaticamente repassado ao usuário, já que a tarifa pública é fixada pelo poder público. Atualmente, o anapolino paga R$ 5,25 pelo bilhete antecipado ou R$ 6,00 no pagamento direto ao motorista. A diferença, em tese, deveria ser coberta por subsídios.

Segundo o diretor jurídico da Urban, Carlos Leão, a situação em 2025 é ainda mais delicada. Ele aponta que a empresa amarga prejuízos com 17 domingos de gratuidade sem contrapartida financeira da Prefeitura, além de fornecer ônibus gratuitos para a Exposição Agropecuária (Expoana). Outro fator que encarece a conta é o retorno da cobrança do ISS e o aumento do INSS sobre a folha de pagamento. “Não recebemos um centavo por essas gratuidades. A conta sobe e o passageiro está cada vez mais ausente”, declarou em reunião com a Comissão de Transportes da Câmara, na última quarta-feira (3).

A pressão por subsídios cresceu e gerou reações. Na segunda-feira (1º), o prefeito Márcio Corrêa (PL) conquistou vitória no Tribunal de Justiça de Goiás, que suspendeu decisão anterior obrigando o município a arcar com os R$ 8,19 por passageiro. A desembargadora Iara Márcia Franzoni destacou os “efeitos irreversíveis” de um reajuste imediato e preservou a tarifa atual, evitando que Anápolis tivesse a passagem mais cara do Brasil.

Na Câmara, a insatisfação com a Urban se transformou em movimento político. Vereadores articulam a criação de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para investigar descumprimentos contratuais, como a entrega de 24 pontos de ônibus por ano, a renovação da frota e melhorias na acessibilidade. “Isso nunca aconteceu”, disparou o vereador João da Luz (Cidadania), autor do pedido. Outros parlamentares apontam falhas na manutenção do terminal urbano, redução de horários e alteração de rotas que prejudicam usuários.

O debate ganhou força com a audiência pública realizada nesta sexta-feira (5), aberta à população. Proposta pelo vereador Wederson Lopes (UB), a sessão reuniu representantes da Urban, da Agência Reguladora Municipal (ARM), além de entidades civis e moradores. O prazo para ARM e Urban apresentarem um plano conjunto de melhorias foi fixado até 30 de setembro. Wederson ressaltou que o contrato atual, firmado há uma década, não reflete mais a realidade: “Hoje vivemos uma situação totalmente diferente, com menos passageiros e mais custos. É pacífico que o sistema só sobrevive com subsídio”.

De fato, os números mostram a crise: em 2015, quando a concessão começou, a previsão era transportar 2 milhões de passageiros por mês. Atualmente, esse volume caiu para cerca de 600 mil, reflexo da pandemia e do crescimento dos aplicativos de transporte. O custo mensal, no entanto, permanece alto, em torno de R$ 7 milhões. “O sistema está na UTI. Precisa de aporte municipal e estadual para continuar”, disse Carlos Leão.

Enquanto a Urban pede socorro, parte dos vereadores defende alternativas mais ousadas. Rimet Jules (PT) insiste na Tarifa Zero, modelo em que a gratuidade total seria financiada por outras fontes de receita, como impostos sobre combustíveis ou repasses estaduais. Jean Carlos (PL) defende maior articulação com o governo federal para custear gratuidades já existentes, como estudantes e idosos.

O Executivo também sinalizou movimento nesse sentido. A Câmara aprovou projeto que autoriza subsídios ao sistema e liberou aporte de R$ 687,9 mil para recompor a data-base dos trabalhadores da Urban em 2025/2026, cobrindo reajuste salarial de 5,2%. Ainda assim, parlamentares como Jakson Charles (PSB) alertam que a medida é paliativa e não resolve a questão estrutural.

No meio do impasse, usuários seguem enfrentando ônibus velhos, pontos de parada precários e linhas reduzidas. A incerteza sobre o preço da passagem em 2025 permanece, mas o que está claro é que o sistema atual não se sustenta sem forte participação do poder público. Se a tarifa pública não sobe, será preciso ampliar subsídios; se não houver aporte, cresce a pressão para repassar custos ao bolso do cidadão.

O contrato da Urban vence em 2025, e até lá, Prefeitura e Câmara terão de decidir se mantêm a empresa, revisam o modelo ou buscam uma nova concessionária. O desfecho vai definir não apenas o preço da passagem, mas o futuro da mobilidade urbana em Anápolis.

Câmara impõe prazo e exige plano de melhorias para transporte coletivo em Anápolis