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Às vésperas de torneio, mães denunciam atraso do Bolsa Atleta para filhos em Anápolis

Falta de repasses do programa municipal compromete treinos, viagens e participação de jovens atletas em competição internacional


Por Carlos Nathan em 17/01/2026 - 13:56

Às vésperas de torneio, mães denunciam atraso do Bolsa Atleta para filhos em Anápolis
Ana Júlia, de 15 anos, de 15 anos, compete no jiu-jítsu e está com a bolsa na categoria de alto rendimento em atraso. (Foto: Arquivo pessoal)

Às vésperas do Campeonato Europeu de Jiu-Jítsu da IBJJF, que será realizado em Lisboa, Portugal, jovens atletas de Anápolis e suas famílias vivem um cenário de incerteza e indignação. Mães de beneficiários do programa municipal Bolsa Atleta denunciam o atraso no pagamento das parcelas referentes ao ano de 2025, situação que tem comprometido diretamente a preparação, os treinamentos e a participação dos atletas na competição internacional, marcada para a próxima semana.

O Bolsa Atleta é um programa da Prefeitura de Anápolis criado para incentivar e apoiar financeiramente atletas em formação, de rendimento e de alto desempenho. O benefício pode ser utilizado para cobrir despesas com educação, alimentação, saúde, treinamento, aquisição de equipamentos esportivos, pagamento de taxas de competições e transporte para participação em eventos fora do município. Em Anápolis, o programa prevê o pagamento de sete parcelas ao longo do ano de 2025, com valores definidos conforme a categoria do atleta: R$ 250 para a Base I, R$ 400 para a Base II e R$ 550 para a categoria Rendimento.

Apesar da previsão contratual, os beneficiários relatam que apenas três parcelas foram pagas até o momento, restando quatro repasses em atraso. O problema, segundo as famílias, é que o programa não cobre todos os custos do esporte de alto rendimento, mas funciona como um apoio essencial para viabilizar competições, especialmente aquelas realizadas fora do país.

A advogada Yasmin Silva Peixoto, mãe da atleta Ana Júlia Silva Muniz, de 15 anos, é uma das que denunciam o atraso. A jovem compete no jiu-jítsu e é contemplada com a bolsa na categoria de alto rendimento. Ana Júlia tem viagem marcada para o dia 20 de janeiro, com participação no Campeonato Europeu da IBJJF prevista para o dia 22, em Lisboa.

“De acordo com o contrato do Bolsa Atleta, devem ser pagas sete parcelas no ano de 2025, mas até agora só recebemos três. Estou em um grupo de mães de atletas de outros esportes e ninguém recebeu. Esse valor é justamente para ser usado em competições e treinos. Muitos atletas deixaram de competir por falta do recurso”, afirmou Yasmin.

Segundo ela, não há uma previsão concreta para a regularização dos pagamentos. “O secretário de Esporte sempre joga para frente. Minha filha compete muito. Essa bolsa não paga todos os gastos, mas ajuda bastante. Semana que vem ela vai para o Europeu em Lisboa e a situação é de total descaso com os atletas”, criticou.

Yasmin também questiona a gestão dos recursos públicos destinados ao esporte no município. “Se olharmos a prestação de contas da Prefeitura, houve muitos gastos com o desporto, mas os atletas continuam sem receber a bolsa. O valor do benefício é o mesmo desde quando o programa foi instituído, ainda na gestão do prefeito Gomide, em 2011. Tudo aumentou, menos a bolsa”, ressaltou.

Leia também: Prefeitura de Anápolis aposta em recursos federais para enfrentar alagamentos

Ela destaca ainda que os custos das modalidades esportivas são elevados. “As corridas de rua, por exemplo, gastam muito mais, mas não posso afirmar valores exatos. Muitos comentam que até empresas que ganharam licitações não receberam. O prefeito prometeu pagar dez parcelas neste ano, mas é difícil acreditar, porque para abrir um novo edital é necessário concluir o pagamento do anterior. Ele diz que valoriza o esporte, mas não demonstra isso na prática”, completou.

Outra mãe que confirma as denúncias é Edileuza Sérgio de Oliveira Soares, cuidadora e mãe do atleta Enzo Rian de Oliveira Soares, também praticante de jiu-jítsu e igualmente classificado para o Campeonato Europeu da IBJJF, em Lisboa, ao lado de Ana Júlia. Segundo ela, o atraso no Bolsa Atleta impacta diretamente os custos da viagem internacional, que envolvem passagens aéreas, hospedagem, alimentação, inscrição e aquisição de equipamentos.

O programa Bolsa Atleta de Anápolis contempla diversas modalidades esportivas, como atletismo, basquete, capoeira, ciclismo, futebol, futsal, handebol, judô, karatê, kickboxing, natação, patins e skate (práticas radicais), taekwondo, tênis, tênis de mesa, vôlei, xadrez e jiu-jítsu. Para participar, os atletas precisam cumprir critérios específicos. Na Base I, é exigido que o atleta esteja matriculado e frequentando a escola e vinculado a uma instituição esportiva. Na Base II, além desses requisitos, é necessário ser federado. Já na categoria Rendimento, o atleta deve ser federado, estar entre os 20 primeiros do ranking e ter participado de competições em nível nacional.

Procurado, o secretário municipal de Esportes, Divino Antônio Santa Cruz, confirmou o atraso no pagamento das bolsas. Segundo ele, ainda faltam quatro parcelas para a finalização do cronograma previsto. O secretário explicou que, no final do ano passado, a Prefeitura enfrentou dificuldades financeiras que resultaram no cancelamento de empenhos de diversos contratos, incluindo o do Bolsa Atleta.

“Realmente está atrasada. Faltam quatro parcelas para finalizar o pagamento. No final do ano passado, devido à falta de recursos financeiros, a Prefeitura teve que cancelar o empenho de vários contratos, e um deles foi o das bolsas. Neste ano, o pagamento está previsto para começar a ser retomado em fevereiro, a partir do dia 15”, afirmou Divino Antônio Santa Cruz.

Em nota oficial, a Prefeitura de Anápolis confirmou a informação e informou que os pagamentos serão retomados após o dia 15 de fevereiro. “A Prefeitura informa que o pagamento dos bolsistas será retomado em fevereiro, após o dia 15. O cronograma já está sendo organizado pela Secretaria de Economia e as informações serão repassadas aos beneficiários pelos canais oficiais”, diz o comunicado.

Enquanto aguardam a regularização dos repasses, famílias seguem arcando sozinhas com os altos custos do esporte competitivo. Para as mães, o atraso não é apenas uma falha administrativa, mas um sinal de desvalorização dos atletas que representam Anápolis fora do país. Às vésperas de uma das competições mais importantes do calendário internacional do jiu-jítsu, o sentimento predominante é de frustração, insegurança e abandono.