A recente decisão do prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa (PL), de determinar a demissão de servidores da Secretaria Municipal de Saúde (Semusa), em sua maioria médicos, mostrou, segundo os anapolinos, responsabilidade, rigor administrativo e limites entre o direito à defesa e o interesse público. As exonerações, publicadas no Diário Oficial do Município nesta semana, são resultado da conclusão de processos administrativos disciplinares que apontaram abandono de cargo, faltas injustificadas prolongadas e outras irregularidades consideradas graves no âmbito da rede municipal de saúde.
De acordo com os documentos oficiais, há casos em que profissionais permaneceram meses ou até anos sem comparecer ao trabalho, mesmo continuando formalmente vinculados ao serviço público e recebendo remuneração. Em pelo menos quatro processos, ficou comprovado que os servidores não retornaram às funções após o fim de licenças ou afastamentos, ignoraram notificações da administração e não apresentaram justificativas aceitas, o que fundamentou a aplicação da penalidade máxima prevista em lei.
Além das ausências reiteradas, parte dos procedimentos também investigou condutas mais delicadas, como denúncias de assédio sexual, acúmulo irregular de cargos públicos e comportamentos considerados incompatíveis com o exercício da função. Em um dos casos, a Prefeitura de Anápolis determinou o encaminhamento do processo ao Ministério Público de Goiás (MPGO), para apuração na esfera criminal. Há ainda situações em que foi solicitado o levantamento de eventual prejuízo aos cofres públicos, com possibilidade de cobrança de valores recebidos indevidamente, caso as irregularidades sejam confirmadas.
A gestão municipal sustenta que todos os processos respeitaram o direito à ampla defesa e ao contraditório, mas que a decisão reflete uma postura mais rígida diante de irregularidades, especialmente em um setor considerado essencial. Em declaração pública, Márcio Corrêa afirmou que “quem não trabalha não pode continuar recebendo salário público” e ressaltou que a saúde deve ser tratada como prioridade absoluta, uma vez que a população não pode ser penalizada pela ausência de profissionais.
Ainda que as medidas tenham gerado desconforto e críticas em alguns segmentos, há o entendimento de que o prefeito optou por assumir o desgaste político em nome de uma agenda de organização administrativa e responsabilização funcional, sinalizando que não haverá tolerância com práticas que comprometam o atendimento à população.
O caso do vice-prefeito de Terezópolis de Goiás
Entre os desligamentos, ganhou repercussão a demissão do vice-prefeito de Terezópolis de Goiás, Antônio Carlos da Silva Júnior (PSDB), que também atuava como médico na rede municipal de Anápolis. Conforme publicado no Diário Oficial, a exoneração ocorreu por faltas reiteradas ao posto de saúde, após processo administrativo instaurado ainda em 2024. A investigação concluiu que o servidor permaneceu ausente por período superior a 30 dias consecutivos, sem justificativa legal válida, caracterizando abandono de cargo.
A defesa do médico, em nota encaminhada a um jornal de circulação estadual, argumentou que não teria sido comprovada a intenção deliberada de abandonar o cargo e apontou supostas falhas administrativas e desorganização institucional. Também afirmou que a viagem do médico à Europa não teria relação com os fatos apurados, por se tratar de assunto de natureza pessoal. Já a Prefeitura de Terezópolis informou que Antônio Carlos também estaria ausente de suas funções como vice-prefeito, sem justificativa formal, há um período considerado significativo.
Do ponto de vista da gestão de Anápolis, o caso foi tratado como estritamente administrativo, baseado em registros oficiais de frequência, documentos e oitivas, sem distinção de cargos ou posições políticas. A Prefeitura reforçou que outros processos semelhantes ainda estão em fase final de análise, sob caráter sigiloso.
Vale lembrar que o Tribuna de Anápolis entrou em contato com o médico e vice-prefeito para solicitar um posicionamento oficial, mas, até a publicação desta reportagem, não houve retorno. Antônio Carlos também não se manifestou publicamente sobre a demissão e, nos dias em que foi exonerado, limitou-se a publicar vídeos gravados em Portugal, nos quais fala sobre temas relacionados à saúde, sem abordar o caso.
A reação da população nas redes sociais às exonerações foi intensa e, em sua maioria, marcada por indignação e cobrança por mais rigor na administração pública. Comentários com termos como “vergonha” e “vexame” foram recorrentes, assim como pedidos para devolução de valores aos cofres públicos e atuação do Ministério Público. Ao mesmo tempo, houve apoio significativo ao prefeito Márcio Corrêa, com mensagens elogiando a postura firme da gestão e defendendo um pente-fino mais amplo na administração municipal.
Também surgiram críticas políticas, especialmente envolvendo o vice-prefeito de Terezópolis, além de ironias sobre a classe política em geral. Em menor número, alguns comentários demonstraram preocupação com a escassez de médicos na rede pública e questionaram possíveis impactos no atendimento. Ainda assim, predominou a percepção de que as exonerações representam um recado duro, porém necessário, diante de práticas vistas como prejudiciais ao serviço público e ao contribuinte.











