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Após anúncio de “transformação”, prefeito e vereadores debatem sobre futuro do Centro Pop

Discussão sobre atendimento a pessoas em situação de rua divide opiniões na Câmara, mas reforça políticas públicas para o município


Por Carlos Nathan em 13/09/2025 - 14:52

Centro Pop Anápolis
Centro Pop, em Anápolis (Foto: Prefeitura de Anápolis)

O anúncio feito pelo prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa (PL) no início desta semana, de que o atual Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop) será transformado em uma unidade voltada para atendimento psiquiátrico e psicológico, gerou repercussão na cidade e se tornou tema central das discussões das sessões na Câmara Municipal. A medida, segundo o gestor do Executivo, tem como objetivo ampliar a rede de saúde mental, especialmente para dependentes químicos e pessoas em situação de vulnerabilidade.

A decisão foi comunicada em entrevista à Rádio São Francisco, quando Corrêa confirmou que as reformas no prédio terão início imediato e que a inauguração da nova unidade deve acontecer em até 15 dias. O espaço contará com médicos especialistas, criação de leitos, fornecimento de medicamentos e parcerias com instituições de recuperação, como a Missão Vida.

Para justificar a mudança, o prefeito fez duras críticas ao funcionamento atual do Centro Pop. De acordo com ele, parte dos frequentadores estaria revendendo refeições e cobertores fornecidos pelo serviço, além de associar o local ao aumento da criminalidade no entorno. Corrêa afirmou que cerca de 90% dos comércios próximos teriam fechado as portas e classificou o espaço como um “atrativo para criminosos”. “Não podemos usar recursos da prefeitura para fomentar a criminalidade da cidade e para oprimir comerciantes e famílias nos sinaleiros”, declarou.

Apesar do discurso firme do prefeito, o tema dividiu opiniões entre os vereadores, que usaram a tribuna nas sessões ordinárias desta semana para apresentar argumentos a favor e contra a medida.

Na sessão de terça-feira (9), o vereador Domingos Paula (PDT) criticou a possibilidade de fechamento do Centro Pop antes da apresentação de um projeto alternativo. Para ele, a cidade corre o risco de agravar ainda mais a vulnerabilidade da população de rua. “Se forem identificadas entre as pessoas em situação de rua alguém que tenha cometido crime, que preste contas à polícia. Mas também é preciso entender que neste meio existem pessoas que necessitam de um lugar para tomar banho e fazer sua refeição”, afirmou.

Domingos Paula lembrou que já presenciou pessoas utilizando fontes de praças para higiene pessoal, como as da Bom Jesus e da Abílio Wolney. “Se for fechado o Centro Pop, essas pessoas vão para onde? Muitos certamente vão roubar, para garantir seu alimento”, alertou. O parlamentar sugeriu a criação de um espaço de triagem, ressaltando que muitas vezes nem mesmo as famílias querem conviver com essas pessoas.

Em sentido oposto, o vereador Jakson Charles (PSB) defendeu a decisão da Prefeitura. Ele afirmou que o programa atual “não tem eficácia” e que o espaço se tornou atrativo para indivíduos de outras cidades que praticam crimes em Anápolis. Ao concordar com a expressão de que o Centro Pop seria um “resort para bandidos”, reforçou a necessidade de substituição por um modelo mais eficiente. “Fechar o Centro Pop não significa abandonar as pessoas em situação de rua”, disse.

Propostas de protocolos e ações conjuntas

Também na mesma sessão, a vereadora Capitã Elizete (PSD) apresentou uma proposta para criação de um protocolo de atendimento às pessoas em situação de rua. Segundo ela, o objetivo é estruturar uma política que respeite a dignidade humana, mas que evite a desvirtuação de benefícios. “Há uma evolução significativa do número de pessoas nesta situação e, com isso, também aumentam os registros de violência envolvendo essa população”, declarou.

O protocolo sugerido prevê a participação de várias secretarias municipais, Ministério Público, forças de segurança, sociedade civil e igrejas, numa tentativa de organizar de forma integrada a assistência social e a fiscalização.

Já o vereador Professor Marcos (PT) defendeu que o debate deve superar vieses partidários ou ideológicos. Para ele, a questão precisa ser tratada como um problema coletivo e de alta complexidade. “É necessário desenvolver um processo completo, com apoio psicológico e psiquiátrico, reconstrução de vínculos, confecção de documentos, opções de trabalho e oferta de tratamento de saúde regular, e não só com caixa de remédio”, argumentou.

O Professor Marcos destacou ainda que parte das clínicas de recuperação funciona de forma irregular e que muitas vezes as famílias buscam nesses locais uma forma de se “livrar de problemas”. Para ele, a saída passa pelo fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), além da valorização de parcerias com igrejas e organizações não governamentais. “Não pode ser só internação compulsória. É preciso garantir os direitos de todos os cidadãos”, concluiu.

Outro ponto de vista foi apresentado pelo vereador Wederson Lopes (União), que defendeu um debate mais amplo. Para ele, o problema da população em situação de rua vai além do funcionamento do Centro Pop. “As políticas adotadas até hoje não têm se mostrado suficientes. Não é só nível municipal que vai resolver, precisamos de ferramentas legais”, disse.

Wederson lembrou que, em seu primeiro mandato, criou a primeira frente parlamentar de política sobre drogas em Anápolis, quando a rede de apoio estava desestruturada e havia muitas clínicas clandestinas. Hoje, apesar dos avanços, ele considera necessário garantir o tripé entre tratamento, segurança e prevenção. “Se não fizermos o diagnóstico das famílias, vamos continuar enxugando gelo e a cada ano a situação piora”, alertou.

Futuro incerto

A discussão em torno do fechamento do Centro Pop evidencia um impasse entre garantir assistência básica a pessoas em situação de rua e buscar alternativas que respondam às demandas de segurança e saúde mental. Enquanto o Executivo municipal aposta em uma unidade de atendimento psiquiátrico para reorganizar a política pública, vereadores e sociedade civil ainda divergem sobre o caminho mais adequado.

De um lado, há quem enxergue no fechamento do espaço um risco de maior exclusão e vulnerabilidade. Do outro, a expectativa de que a reestruturação traga soluções mais eficazes para o problema, que cresce a cada ano em Anápolis e em diversas cidades brasileiras.

O que parece consenso, entretanto, é que a questão exige atuação conjunta entre Prefeitura, Câmara, órgãos de justiça, igrejas, entidades sociais e a própria comunidade. Até a inauguração da nova unidade, prevista para os próximos dias, o debate promete se intensificar, com impacto direto na vida de centenas de pessoas em situação de rua e no cotidiano da população anapolina.