A Câmara Municipal de Anápolis aprovou, no último dia 20 de agosto, em segunda e definitiva votação, o projeto que institui o “Dia Municipal dos Legendários”, a ser celebrado anualmente em 23 de julho. A proposta, de autoria do vereador Wederson Lopes (União Brasil), recebeu quatro votos contrários, registrados por Rimet Jules (PT), Professor Marcos Carvalho (PT), Domingos Paula (PDT) e Alex Martins (PP).
Para os parlamentares da oposição, o projeto é um exemplo claro de desvio de prioridades dentro do Legislativo municipal. “Votamos contra por entender que não é constitucional, beneficia uma entidade privada. Também porque entendemos que existem questões mais importantes para serem debatidas pela Câmara Municipal”, afirmou o vereador Rimet Jules, ao criticar a proposta que passa a integrar o calendário oficial do município.
O projeto prevê que cada vereador indique anualmente um “legendário” para ser homenageado. A iniciativa, no entanto, tem gerado desconforto dentro e fora do plenário, já que vincula o Legislativo a um movimento que, além de se apresentar como espiritual, funciona também como empresa. Em Anápolis, o grupo foi formalizado em 2024 como “Legendários Goiás Assessoria e Eventos Ltda”, com sede no bairro São João. Ou seja, algo privado e fora do alcance de grande parte da população que, na internet, tem recebido mais críticas negativas do que positivas.
A votação do projeto em Anápolis, aliás, não ocorreu sem constrangimentos. Na terça-feira (19), a segunda análise foi adiada por falta de quórum, o que frustrou os cerca de 11 membros do movimento que acompanhavam a sessão. O vereador Wederson Lopes pediu desculpas aos presentes e chegou a dizer que abraçaria cada um deles no fim da reunião, pedindo que voltassem no dia seguinte para prestigiar a votação. O episódio deixou evidente a disposição de parte dos parlamentares em priorizar a aprovação de uma pauta que pouco dialoga com os reais problemas da cidade.
Além disso, a própria trajetória de Wederson Lopes reforça as críticas. Em 2023, ele se envolveu em polêmica nacional quando, ligado à Igreja Church, levou uma palestrante identificada como “ex-trans” a escolas de Anápolis, para pregar ideais de “cura gay”. O episódio mobilizou investigações do Ministério Público e da Polícia Civil, após denúncias feitas por estudantes.
Ainda sobre o “Dia dos Legendários”, até o dia 29 de agosto – quando a reportagem foi concluída – o prefeito Márcio Corrêa (PL) ainda não havia sancionado o projeto, dando sinal de que há assuntos mais urgentes a tratar no município. Procurada pela reportagem, a Prefeitura também não se manifestou sobre o assunto.
O que são os Legendários?
O movimento Legendários foi fundado em 2015 pelo pastor guatemalteco Chepe Tupzu, ligado à Igreja Casa de Deus. Em 2017, chegou ao Brasil, que hoje reúne o segundo maior número de adeptos no mundo. O grupo afirma buscar a “transformação de homens, famílias e comunidades” por meio de experiências intensas que estimulam a superação de limites físicos, emocionais e espirituais. Atualmente, são 108 sedes distribuídas em 13 países e 70 cidades, com cerca de 52 mil participantes formados.
As atividades incluem retiros em formato de acampamento, geralmente em regiões montanhosas, onde os participantes enfrentam provas físicas e espirituais. O movimento se apresenta como um espaço apenas para homens — casados ou solteiros, mas com turmas específicas para cada perfil. Os custos, contudo, chamam atenção: os chamados “desafios” podem variar de R$ 450 a mais de R$ 81 mil, dependendo do formato, local e tempo de duração.
Outras polêmicas e a conhecida mistura da fé com negócios e política
Nos últimos anos, os Legendários têm conquistado espaço nas redes sociais, especialmente no TikTok, e atraído nomes conhecidos do público. Entre os que já participaram estão o influenciador Eliezer, o humorista Gustavo Tubarão, o pregador Deive Leonardo, o empresário Kaká Diniz — marido da cantora Simone Mendes — e o investidor Thiago Nigro.
Apesar da popularidade, o movimento enfrenta críticas e questionamentos. Uma das polêmicas envolve a associação com igrejas evangélicas: embora a organização afirme não estar vinculada a uma religião específica, seus encontros sempre começam e terminam em templos evangélicos. Para críticos, isso desmente o discurso de neutralidade e aproxima o projeto de um modelo de negócio religioso.
Outro ponto levantado por opositores está no custo elevado das imersões, visto como elitista e inacessível para a maioria da população. Além disso, relatos de participantes indicam que muitos homens procuram o movimento após episódios de infidelidade conjugal, em busca de “reconstrução” pessoal e matrimonial. Essa prática, segundo analistas, pode reforçar estereótipos e levantar dúvidas sobre a real profundidade das transformações prometidas.
Em episódios recentes, o grupo também foi alvo de críticas pela condução de atividades. Em Caldas Novas, um retiro terminou em confusão após um ataque de abelhas que deixou dezenas de participantes feridos, episódio que ganhou repercussão negativa nas redes sociais.
A aprovação do Dia Municipal dos Legendários em Anápolis reabre o debate sobre a intersecção entre religião, interesses comerciais e política. Para os defensores, a criação da data reforça valores cristãos e coloca a cidade em sintonia com outras localidades que já reconheceram o movimento, como Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Belo Horizonte. Para os críticos, porém, a medida simboliza a instrumentalização da máquina pública em favor de um grupo privado que mistura práticas religiosas com modelo empresarial de alto custo.
Na prática, a inclusão do dia dos Legendários em Anápolis no calendário oficial não trará benefícios concretos para a população anapolina. Ao contrário, desvia a atenção de pautas estruturantes, como saúde, educação e mobilidade urbana, que afetam diretamente o cotidiano da cidade.











